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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

CANUDOS: 115 ANOS DE UM MASSACRE






No final do século XIX, poucos anos após a proclamação da República, o sertão da Bahia foi palco de um dos mais extraordinários exemplos de insubordinação popular que a história brasileira já registrou: o arraial de Canudos, ou Belo Monte. 

Fundada pelo beato cearense Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, e ostentando como regra capital o trabalho e a oração, a comunidade de Canudos converteu-se, em pouco mais de três anos, num dos maiores centros populacionais do sertão da Bahia, sendo responsável, inclusive, por sua autosustentação. Relatos da época dão conta do alto nível de prosperidade a que chegou o arraial conselheirista. Constatou Nina Rodrigues, em 1897, que Antônio Conselheiro havia, em curto prazo, elevado Canudos "de estância deserta e abandonada em uma vila florescente e rica". Manuel Benício, testemunha ocular dos fatos, notou que "às margens frescas do rio [o Vaza Barris que banhava Canudos], eram cultivadas plantações de diversos legumes, milho, feijão, favas, batatas, melancias, jerimuns, melões, canas, etc... os pequenos cultores da terra possuíam sítios, pomares, fazendolas de criação de bode, animais vacuns e cavalares". A pecuária, com acento na caprinocultura,  assumia tamanho papel na economia do Belo Monte que um importante político da época, o deputado César Zama, chegou  a afirmar que "aquela povoação proporcionava ao Estado pingue fonte de receita do imposto de exportação sobre peles". Nos anos quarenta do século passado, Manuel Ciríaco, ex-morador do arraial, contou ao jornalista Odorico Tavares, da revista O Cruzeiro, que "no tempo de Antônio Conselheiro havia de tudo, por estes arredores... Até cana de açúcar de se descascar com a unha nascia bonitona por estes lados. Legumes com abundância e chuvas à vontade". Outro remanescente de Canudos, Honório Villa Nova, não conseguia esconder a nostalgia, quando o assunto era o cotidiano do Belo Monte: "Grande era o Canudos do meu tempo [disse ele a Nertan Macedo]. Quem tinha roça tratava de roça. Quem tinha gado tratava do gado. Quem tinha mulher e filhos, tratava da mulher e dos filhos. Quem gostava de rezar ia rezar". Este conjunto de informações oriundas de pessoas de dentro e de fora de Canudos dá uma dimensão aproximada do quão importante foi  a comunidade canudense, do ponto de vista político, social e econômico.

As elites brasileiras, contudo, não viram com bons olhos a experiência de Canudos. No final de 1896, acusando os conselheiristas de insubordinação contra a República, o Estado Brasileiro declara guerra à "aldeia sagrada" dos sertanejos. Para exterminar o arraial, tido como monarquista, o Governo Federal, com o apoio da Igreja Católica e dos fazendeiros, mandou ao sertão da Bahia nada menos que quatro expedições militares, totalizando-se um contingente de cerca de doze mil homens em armas, mais da metade do efetivo do Exército, naquele momento. A capacidade bélica dos sertanejos, inicialmente subestimada, surpreendeu os adversários. A cada batalha travada, as forças legais sofriam novas baixas e o poder de fogo dos canudenses saía fortalecido. As três primeiras expedições, que juntas totalizavam mais de dois mil soldados, foram fragorosamente esmagadas.

As sucessivas derrotas puseram em pânico o Governo da República que passou a ver em Canudos um perigo cada vez mais real e assustador. Impunha-se, portanto, que se tomassem medidas mais enérgicas. Afinal de contas – acreditava-se – era o destino da República que se encontrava em jogo. O Governo não tardou e uma nova expedição foi mandada às terras sertanejas, desta feita com quase dez mil soldados, além dos reforços posteriores. As elites, então, puderam respirar aliviadas. Canudos, finalmente, estava liquidado. No conflito, morreram cinco mil soldados e todos os habitantes do Belo Monte, estes últimos estimados em quinze mil almas. Deste modo, Canudos entrou para a história como o maior e mais violento massacre já ocorrido em terras brasileiras.

Ao fechar sua obra maior – Os Sertões – livro em que narrou o episódio de Canudos, o ensaísta Euclides da Cunha assim se expressou: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo na precisão integral do termo, caiu no dia 5 (de outubro de 1897), ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados”. Era a constatação, por parte de um membro da elite letrada do Brasil, de que o extermínio material de Canudos não implicava necessariamente no extermínio da utopia de Antônio Conselheiro. Canudos, de fato, não morreu. E como diz o poeta, ele “está vivo na união, tá na fé no coração/ Tá no homem, na mulher/... tá na terra na alegria/no amor, na rebeldia”.

José Gonçalves do Nascimento
Presidente da Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim - ACLASB

CONSÓRCIOS PÚBLICOS: UM NOVO CONCEITO DE GESTÃO




Os chamados consórcios públicos foram criados pela Lei nº 11.107, de 6 de abril de 2005, e regulamentados pelo Decreto nº 6.017, de 17 de janeiro de 2007, ambos federais, como resultado de um novo conceito de gestão dos serviços públicos, que aos poucos vem sendo consolidado.

A Emenda Constitucional nº19/98 já acrescentava tal instituto à redação do artigo 241 da Constituição Federal de 1988, ao dizer que “a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios disciplinarão por meio de lei os consórcios públicos e os convênios de cooperação entre os entes federados, autorizando a gestão associada de serviços públicos”.

De natureza voluntária, uma vez que os municípios estão livres para acatá-los ou não, os consórcios públicos nada mais são do que parcerias estabelecidas por dois ou mais entes da federação, tendo por objetivo discutir e promover políticas e ações de interesse comum. Têm caráter de “associação pública com personalidade jurídica de direito público e de natureza autárquica ou como pessoa jurídica de direito privado sem fins econômicos”. (Art. 2º, I, Dec. 6.017/07).

Os consórcios são ferramentas da mais alta relevância no processo de otimização e melhoria da prestação de serviços públicos, permitindo-se que entes federados se empenhem conjuntamente na consecução de obras de alcance local e regional, como aquelas relacionadas a esgotamento sanitário, manejo de resíduos sólidos, infraestrutura, saúde, educação, abastecimento de água, convivência com a seca, dentre outras. Os consórcios se propõem, também, a viabilizar a gestão pública em regiões metropolitanas, bacias hidrográficas, pólos regionais, etc. – locais onde, forçosamente, a solução de problemas comuns só pode ser efetivada através de políticas e ações igualmente comuns.

A forma de gestão consorciada torna possível a execução de iniciativas que a mor parte dos municípios brasileiros não teria condições de viabilizar, caso agisse isoladamente, a exemplo da aquisição de equipamentos de alto custo e do desenho e manutenção de políticas que demandam altas somas de recursos.

A articulação via consorciação pública pode, ainda, forjar melhores condições de negociação dos municípios consorciados junto aos governos estadual e federal (ou junto a entidades da sociedade, empresas ou agências estatais), fazendo com que tais municípios adquiram mais poder de pressão e, consequentemente, maior capacidade de captação de recursos financeiros, podendo, destarte, incrementar quantitativa e qualitativamente os serviços públicos oferecidos aos cidadãos e cidadãs.

Efetivamente, os consórcios públicos representam a melhor experiência no que se refere às lentas, porém importantes, mudanças ocorridas no âmbito das gestões local e regional. E, sem sombra de dúvidas, terão muito a contribuir com os municípios brasileiros e baianos na construção e consolidação de políticas públicas cada vez melhores e mais eficientes.

 “O efetivo uso dos consórcios públicos e da gestão associada de serviços pode ser instrumento poderoso para o enfrentamento da nova agenda federativa, em especial a agenda das cidades e do desenvolvimento regional”, assevera a professora Maria Raquel M. A. J. de Amorim, da Universidade Católica de Goiás.


José Gonçalves do Nascimento
Secretário Executivo do Consórcio de Desenvolvimento Sustentável do Piemonte Norte Itapicuru – CDS/TIPNI.

sábado, 16 de junho de 2012

NOTAS ACERCA DA EMANCIPAÇÃO DE SENHOR DO BONFIM



 
Parece de bom alvitre trazer à discussão a data do 28 de maio, que habitualmente é festejada, como se fosse a da emancipação política e administrativa do município de Senhor do Bonfim.

Ora, a emancipação de Senhor do Bonfim ocorreu quando o antigo Arraial da Tapera foi elevado à condição de vila, dando origem a Villa Nova da Rainha, desmembrada da Vila Velha de Jacobina. Isso se deu em 1º de outubro de 1799, conforme o Auto de criação e instalação da referida vila, transcrito por Lourenço Pereira da Silva, no livro: Memória Histórica e Geográfica sobre a Comarca do Bonfim. Bahia: Typografia Reis & C., 1915, pp. 81-82. Lê-se no memorável Auto: “Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos e noventa e nove, primeiro dia do mês de outubro do dito ano, neste arraial do Senhor do Bonfim da Tapera e casa onde se acha aposentado o doutor José da Silva Magalhães, desembargador de sua Majestade Fidelíssima (...) donde eu escrivão de seu cargo no adiante nomeado me achara, e sendo aí mandou vir a sua presença e nela ajuntar por anteriores pregões dados em voz alta por todo o arraial, pelo porteiro Francisco Dias da Silva, a nobreza do povo não somente do arraial, mas também de toda a freguesia, e sendo presentes lhes propôs que ele se achava autorizado em nome da sua Majestade Fidelíssima pelo Governador Capitão General da cidade da Bahia, dom Fernando José de Portugal, para a criação da Vila que se mandara estabelecer nesse mencionado arraial, em virtude da representação do povo”.

Como parte desse processo, foi criada também a Câmara de Vereadores, órgão máximo da administração municipal, tanto na Colônia como no Império. Era a Câmara que garantia a autonomia do município. A ela cabia o duplo ofício de legislar e de administrar a cidade. Foi assim desde os primórdios da história do Brasil até a proclamação da República, quando surge a figura do intendente ou prefeito, que passa a assumir a tarefa administrativa, como chefe do executivo municipal. Além da Câmara de Vereadores, dita vila foi dotada também de juiz ordinário, juiz de órfãos e procurador.     

Ali estava consolidada, de uma vez por todas, a autonomia política e administrativa de Senhor do Bonfim, em que pese o Brasil achar-se ainda sob a tutela da coroa lusitana.

O que efetivamente ocorreu em 1885, quase 100 anos depois daquele histórico acontecimento, foi a elevação da vila ao status de cidade – o que nada mais era do que um título honorífico – não acrescentando, no caso em apreço, outra coisa de substancial, afora a mudança de nome da comuna, de Villa Nova da Rainha para o “auspicioso” Senhor do Bonfim. Fora disso, a cidade continuaria a mesma, com a mesma estrutura político-administrativa de um século atrás.  

Lembro-me, a propósito, de trecho do romance histórico O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, em que diante da notícia de que a vila de Santa Fé seria transformada em cidade, o capataz Fandango diz ao líder local, Licurgo Cambará: “A Assembleia resolveu que agora Santa Fé é cidade. Todo mundo fica louco, a festança começa, é sino, viva e foguete. Mas me diga, cambiou alguma coisa? Nasceu alguma casa nova, alguma rua nova, alguma árvore nova só por causa do Decreto? Não. Pois é...”.

As indagações do personagem do romance gaúcho não seriam aplicáveis também a Senhor do Bonfim?
                        
É válida e até imperiosa, a comemoração do 28 de maio, contanto que não se fuja do significado da data. Não é razoável e poderá causar sérios danos à memória histórica de Senhor do Bonfim a celebração do tal dia como se fosse o da emancipação da próspera e hospitaleira Terra do Bom Começo. Urge, então, a bem da verdade, que se corrija o grave equívoco e a escola é o espaço ideal para se encetar essa indispensável empreitada.

É igualmente necessário que se inclua o 1º de outubro no calendário local de comemorações, fixando a data como referência maior da luta pela independência política do Município e garantindo à mesma toda a  solenidade que lhe é devida, por força da sua importância cívica, histórica e cultural.

Desta forma, estaremos fazendo justiça à história de Senhor do Bonfim e ao mesmo tempo contribuindo para a valorização e reconhecimento a todos aqueles e aquelas que, de alguma forma, colaboraram com a construção e engrandecimento desta terra que foi, é e será o orgulho da Bahia.


José Gonçalves do Nascimento
Presidente da Academia de Artes e Letras de Senhor do Bonfim – ACLASB.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

SECA: SOFRIMENTO E DESCASO




                                                       Por José Gonçalves do Nascimento





Causa-nos indignação o fato de ainda não dispormos de uma política séria de convivência com a seca.

As estiagens prolongadas no semiárido nordestino não constituem fato novo. Já duram séculos e desde épocas imemoráveis que se vem discutindo saídas para enfrentar o problema. Um sem-número de intelectuais e renomados pensadores brasileiros, inspirados no assunto, e às vezes até tangidos pela indignação, deram origem a obras magníficas, muitas das quais ainda hoje repercutem como verdadeiros manifestos contra tal estado de coisas. Dentre essas obras, há que se mencionar, à guisa de ilustração: Os Sertões (Euclides da Cunha); O Quinze (Raquel de Queiroz); A Bagaceira (José Américo de Almeida); Vidas Secas (Graciliano Ramos); Seara Vermelha (Jorge Amado); Geografia da Fome (Josué de Castro) e tantos outros monumentos da literatura nacional. O tema  pautou também as artes plásticas, a fotografia, a poesia, o teatro e o cinema, neste último merecendo destaque o clássico Deus e o Diabo na Terra do Sol, do baiano Glauber Rocha. Mas, até agora, malgrado essas manifestações todas, pouca coisa se fez concretamente para pôr fim aos sofrimentos provocados pelo indesejável fenômeno.  A cada estiagem: a fome, a sede, o flagelo de milhares de sertanejos. D'outro lado: o descaso, a insensibilidade das autoridades, a exploração da famigerada indústria da seca. Um ciclo passa, e depois outro, e mais outro, e mais outro. E o sertão (e com ele o sertanejo e tudo que lhe está em volta) sucumbindo sempre nessa cadeia brutal e destruidora.

Na verdade, os governos nunca demonstraram maiores interesses em, de fato, resolver os problemas provocados pelas secas. Os órgãos criados para enfrentar o triste drama, alguns do quais já extintos, não conseguiram obter grandes avanços no trabalho de combate aos efeitos das estiagens, preferindo, muitos deles, colocar-se a serviço do clientelismo político, que não raro, ainda impregna a máquina estatal.

Até quando nosso povo será penalizado por desastres previsíveis e preveníveis como os que atualmente vêm devastando o solo nordestino em consequência da precariedade dos recursos hídricos? As secas, conforme tem testemunhado a própria história, estão circunscritas num regime de ciclos que se repetem a cada dez, quinze ou vinte anos, com possibilidade de variações. Esta matemática, qualquer camponês a conhece de cor e salteado. Mesmo diante de tanta evidência, as autoridades governamentais nunca se preocuparam seriamente com a adoção de políticas que pudessem, de uma vez por todas, prevenir os efeitos da estiagem e dar aos sertanejos condições de convivência digna com o fenômeno da seca.  Ao invés disso, a prática adotada até agora foi a de esperar a crise se aproximar para depois enfrentá-la de forma emergencial e paliativa, sem nenhum planejamento de médio ou longo prazo.

É necessário que se discutam ações macro e estruturantes que visem ao combate dos efeitos da estiagem numa perspectiva que vá muito além da cesta básica ou mesmo do carro-pipa – expedientes muitas vezes utilizados como trampolim político-eleitoreiro para beneficiar políticos inescrupulosos. Josué de Castro, nos anos cinquenta, ao falar das medidas que, no seu entendimento, deveriam ser adotadas no combate aos malefícios da seca, já chamava a atenção dos governos para a necessidade de “medidas estruturais que modifiquem realmente os alicerces econômicos da região nordestina. O fenômeno [continua o autor de Homens e Caranguejos] é de natureza estrutural, a começar pela má distribuição da propriedade agrária, devido ao regime latifundiário altamente defeituoso, associada a certo descaso pela região, acrescida da má aplicação das inversões destinadas ao Nordeste”. 

Nesta perspectiva, poder-se-ia pensar no enfrentamento do problema da estiagem a partir das nossas cadeias produtivas, que não são poucas, mas que paulatinamente vão sendo dilaceradas em virtude da escassez de água. Uma ação dessa natureza implicará necessariamente na adoção de medidas estruturais que vão desde a distribuição da terra até o armazenamento da água, o incentivo à aquisição de insumos e a garantia de preços e comercialização. O que não se admite são ações isoladas e sem planejamento, que em nada contribuem para a solução definitiva do problema da seca.

É absolutamente inaceitável que em pleno século XXI, quando já houve tanto tempo para a busca de soluções efetivas de combate aos efeitos da seca, ainda tenhamos que conviver com a vergonhosa política do carro-pipa e da cesta básica.

E ainda querem insistir que somos a quinta economia do mundo!

quarta-feira, 7 de março de 2012

NOTAS ACERCA DO PROTAGONISMO FEMININO


Estará enganado quem vier a pensar que a posição da mulher no curso da história foi sempre de passividade e silêncio. O próprio 8 de março nasceu do protagonismo feminino, tendo sua origem na cidade de Nova Iorque, em 1857, quando uma manifestação contra as más condições de trabalho numa indústria de tecidos resultou no massacre de dezenas de  mulheres trabalhadoras.

No Brasil e na Bahia inúmeras foram as vezes em que as mulheres, não satisfeitas com o estado de indiferença e apatia a que eram relegadas pela cultura machista, fizeram valer sua coragem e determinação, tomando parte em acontecimentos que se tornariam decisivos no processo de construção da história nacional.

Três episódios da vida brasileira são particularmente emblemáticos no que tange ao protagonismo feminino. São eles:

I. Guerra de Independência da Bahia – Travada contra os portugueses no primeiro quartel do século XIX, nela figuraram heroicamente a religiosa Joana Angélica – morta barbaramente à porta do convento; a soldado Maria Quitéria – alistada como voluntária para lutar junto ao exército nacional e a negra Maria Felipa, que à frente de um grupo de outras mulheres valorosas comandou forte resistência na Ilha de Itaparica, incinerando dezenas de embarcações inimigas. Não por acaso, estas três mulheres se tornariam as figuras mais populares da luta que resultou na vitória do 2 de julho.

II. Guerra de Canudos (1896-1897) – É assaz significativo o número de mulheres que vieram a tomar parte na construção e defesa do arraial de Canudos, nisto lutando até as últimas consequências. Dentre elas, cabe recordar: Dona Benta – uma das figuras mais respeitosas da comunidade canudense, a quem cabia, entre outras coisas, a administração do santuário; Maria da Guerra, (“jagunça braba”, no dizer de José Aras) – heroína de vários combates, tendo lutado contra a expedição Moreira Cezar, quando eliminou muitos soldados a golpe de foice; Pimpona – assim chamada devido à sua encantadora formosura. Foi defensora aguerrida do povo de Antônio Conselheiro, acabando por ferir-se em pleno conflito. A estas, somam-se ainda os nomes de Maria Francisca, Marta Figueira, Bibiana, mestras da comunidade, e de Mãe Caridade, uma das tantas curandeiras do lugar. 

III. Cangaço Nesse ambiente, à primeira vista dominado por “machões”, a figura feminina também exerceria seu protagonismo. No bando de Lampião, o mais afamado de todos, pelo menos três mulheres ocuparam lugar de relevo: Sila – mulher do cangaceiro Zé Sereno, famosa pelas suas investidas contra as “volantes”; Dadá – mulher do temível Corisco, conhecida até hoje pela sua incomparável valentia e Maria Bonita ou Maria Dea – companheira do Rei do Cangaço e uma das personagens mais vibrantes da história do Brasil. Era a ela que recorria o Capitão, quando tinha que tomar uma decisão mais delicada, como, por exemplo, levantar acampamento ou mesmo executar uma “presa”.

O protagonismo feminino, todavia, é muito maior do que se possa imaginar, tornando-se de todo impossível circunscrevê-lo a esse ou àquele momento histórico, muito menos limitá-lo a uma ou outra atividade. O que se pode dizer, no caso específico do Brasil, é que as mulheres sempre estiveram presentes nos processos históricos mais importantes, embora a maioria delas, até hoje, tenha agido no anonimato. No momento, é por demais expressiva a presença feminina em associações de moradores, igrejas, sindicatos, conselhos de gestão, partidos políticos, grupos organizados, etcetera.

Assim, embora reprimidas e muitas vezes a contragosto de espíritos machistas, as mulheres têm sabido ocupar o espaço que entendem lhes pertencer, nisso demonstrando capacidade, força e determinação, sem jamais faltar uma boa dose de ternura.


José Gonçalves do Nascimento
Presidente da Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim – Bahia
jgoncalvesnascimento@hotmail.com

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Latifúndio e barbárie



No último dia 6 de setembro, vésperas da Independência do Brasil, o latifúndio fez tombar mais um trabalhador rural. Desta vez, a vítima foi Leonardo de Jesus Leite, 37 anos, casado, pai de dois filhos, residente no povoado de Mandassaia, município de Monte Santo (BA). Ele pertencia ao Movimento de Trabalhadores Assentados Acampados e Quilombolas (CETA), e há onze anos lutava, ao lado de um grupo de trabalhadores rurais, pela desapropriação de uma área de terra na Fazenda Jibóia, município de Euclides de Cunha (BA).

Leonardo de Jesus é mais um que chega para engrossar a vergonhosa cifra da violência no campo, que há séculos ensanguenta o solo brasileiro, em decorrência da concentração fundiária.

A concentração da propriedade da terra tem acompanhado a história do Brasil, desde os tempos coloniais. As capitanias hereditárias deram origem às sesmarias e estas, por sua vez, deram lugar aos atuais latifúndios. O Brasil, ao longo dos seus 500 anos de ocupação, passou por transformações de todas as ordens, menos no que diz respeito ao sistema fundiário. Uma breve retrospectiva nos mostrará que o Brasil, neste aspecto, se caracterizou, até hoje, como um país extremamente arcaico, conservador e iníquo.

Depois do fracasso do sistema de sesmarias, o país conheceu, em 1850, a chamada Lei de Terras.  Por esta Lei, as terras, antes propriedade da Coroa, se converteram em mercadoria e passaram a ser regidas pela lógica do mercado. A medida fez com que a terra continuasse nas mãos dos ricos, pois somente estes tinham dinheiro para adquiri-las.  Os camponeses, os escravos libertos e os imigrantes pobres que chegassem ao Brasil, estariam privados do acesso à propriedade da terra. Esse quadro marcará de forma substancial toda fase imperial, sobretudo o segundo reinado. Só para se ter uma ideia, o mesmo sistema que em 1888 aboliu a escravatura, não foi capaz de pôr fim à concentração fundiária.

A República rompeu os laços da Monarquia, desfez a unidade que atrelava Igreja e Estado, injetou ideias novas na política brasileira, estabeleceu o federalismo e com ele a autonomia dos estados e municípios, mas não introduziu nenhuma alteração no que diz respeito ao sistema fundiário. Ocorreu justamente o contrário: com a proclamação da República, as elites agrárias saíram mais fortalecidas. Caso emblemático é o da chamada República do “café com leite”, que dominou o cenário político brasileiro nos primeiros 40 anos de regime republicano.

Nos anos de 1960, com as chamadas Reformas de Base, do governo João Goulart, ensaiaram-se algumas mudanças na estrutura fundiária brasileira. As Reformas de Base previam, entre outras coisas, a desapropriação das áreas rurais superiores a quinhentos hectares, que se situassem às margens de estradas federais numa faixa de dez quilômetros; assim como áreas superiores a trinta hectares, marginais dos açudes e obras de irrigação financiadas pelo Governo. Isso significava o início de um processo de transformação mais profunda no âmbito da velha estrutura fundiária brasileira.

Em 1964 veio o golpe militar e, com este, o fim do governo Jango e das reformas de base.

A ditadura fez arrefecer as iniciativas de reforma agrária, permitindo-se que a concentração da terra se acentuasse ainda mais.  A máquina estatal, posta a serviço dos poderosos, foi usada para consolidar e proteger, com seu aparato policial, a estrutura latifundiária.

A partir do Governo Sarney, já na chamada Nova República, o tema da Reforma Agrária foi retomado pela agenda oficial, mas pouco se fez concretamente. Apesar dos avanços operados nesses últimos anos, a politica de redistribuição fundiária ainda é muito tímida. Os governos parecem impotentes diante do “monstro” do latifúndio! E não é para menos! Não nos esqueçamos de que parcela considerável do Parlamento e do Executivo (os responsáveis diretos pela redefinição da política fundiária) é ocupada por grandes latifundiários.

Contudo, a luta pela terra nunca esmaeceu. Muito pelo contrário: ela só tem se fortalecido. E é a esta luta que nós tributamos as diversas experiências de reforma agrária existentes neste país. Mas isso tem custado o sangue de muita gente. Os conflitos de terra seguidos de assassinatos de trabalhadores vêm se acentuado a cada dia. O último relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT) revela que em 2010, no Brasil, foram assassinadas 34 pessoas em conflitos no campo –  30% a mais do que no ano anterior, quando foram mortos 26 agricultores. Só na região de Monte Santo foram registrados, nos últimos três anos, 05 (cinco) assassinatos de trabalhadores rurais na luta pela terra.

Senhor do Bonfim – Bahia

Por: José Gonçalves do Nascimento - Filósofo e poeta
jgoncalvesnascimento@hotmail.com