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segunda-feira, 7 de maio de 2012

SECA: SOFRIMENTO E DESCASO




                                                       Por José Gonçalves do Nascimento





Causa-nos indignação o fato de ainda não dispormos de uma política séria de convivência com a seca.

As estiagens prolongadas no semiárido nordestino não constituem fato novo. Já duram séculos e desde épocas imemoráveis que se vem discutindo saídas para enfrentar o problema. Um sem-número de intelectuais e renomados pensadores brasileiros, inspirados no assunto, e às vezes até tangidos pela indignação, deram origem a obras magníficas, muitas das quais ainda hoje repercutem como verdadeiros manifestos contra tal estado de coisas. Dentre essas obras, há que se mencionar, à guisa de ilustração: Os Sertões (Euclides da Cunha); O Quinze (Raquel de Queiroz); A Bagaceira (José Américo de Almeida); Vidas Secas (Graciliano Ramos); Seara Vermelha (Jorge Amado); Geografia da Fome (Josué de Castro) e tantos outros monumentos da literatura nacional. O tema  pautou também as artes plásticas, a fotografia, a poesia, o teatro e o cinema, neste último merecendo destaque o clássico Deus e o Diabo na Terra do Sol, do baiano Glauber Rocha. Mas, até agora, malgrado essas manifestações todas, pouca coisa se fez concretamente para pôr fim aos sofrimentos provocados pelo indesejável fenômeno.  A cada estiagem: a fome, a sede, o flagelo de milhares de sertanejos. D'outro lado: o descaso, a insensibilidade das autoridades, a exploração da famigerada indústria da seca. Um ciclo passa, e depois outro, e mais outro, e mais outro. E o sertão (e com ele o sertanejo e tudo que lhe está em volta) sucumbindo sempre nessa cadeia brutal e destruidora.

Na verdade, os governos nunca demonstraram maiores interesses em, de fato, resolver os problemas provocados pelas secas. Os órgãos criados para enfrentar o triste drama, alguns do quais já extintos, não conseguiram obter grandes avanços no trabalho de combate aos efeitos das estiagens, preferindo, muitos deles, colocar-se a serviço do clientelismo político, que não raro, ainda impregna a máquina estatal.

Até quando nosso povo será penalizado por desastres previsíveis e preveníveis como os que atualmente vêm devastando o solo nordestino em consequência da precariedade dos recursos hídricos? As secas, conforme tem testemunhado a própria história, estão circunscritas num regime de ciclos que se repetem a cada dez, quinze ou vinte anos, com possibilidade de variações. Esta matemática, qualquer camponês a conhece de cor e salteado. Mesmo diante de tanta evidência, as autoridades governamentais nunca se preocuparam seriamente com a adoção de políticas que pudessem, de uma vez por todas, prevenir os efeitos da estiagem e dar aos sertanejos condições de convivência digna com o fenômeno da seca.  Ao invés disso, a prática adotada até agora foi a de esperar a crise se aproximar para depois enfrentá-la de forma emergencial e paliativa, sem nenhum planejamento de médio ou longo prazo.

É necessário que se discutam ações macro e estruturantes que visem ao combate dos efeitos da estiagem numa perspectiva que vá muito além da cesta básica ou mesmo do carro-pipa – expedientes muitas vezes utilizados como trampolim político-eleitoreiro para beneficiar políticos inescrupulosos. Josué de Castro, nos anos cinquenta, ao falar das medidas que, no seu entendimento, deveriam ser adotadas no combate aos malefícios da seca, já chamava a atenção dos governos para a necessidade de “medidas estruturais que modifiquem realmente os alicerces econômicos da região nordestina. O fenômeno [continua o autor de Homens e Caranguejos] é de natureza estrutural, a começar pela má distribuição da propriedade agrária, devido ao regime latifundiário altamente defeituoso, associada a certo descaso pela região, acrescida da má aplicação das inversões destinadas ao Nordeste”. 

Nesta perspectiva, poder-se-ia pensar no enfrentamento do problema da estiagem a partir das nossas cadeias produtivas, que não são poucas, mas que paulatinamente vão sendo dilaceradas em virtude da escassez de água. Uma ação dessa natureza implicará necessariamente na adoção de medidas estruturais que vão desde a distribuição da terra até o armazenamento da água, o incentivo à aquisição de insumos e a garantia de preços e comercialização. O que não se admite são ações isoladas e sem planejamento, que em nada contribuem para a solução definitiva do problema da seca.

É absolutamente inaceitável que em pleno século XXI, quando já houve tanto tempo para a busca de soluções efetivas de combate aos efeitos da seca, ainda tenhamos que conviver com a vergonhosa política do carro-pipa e da cesta básica.

E ainda querem insistir que somos a quinta economia do mundo!

quarta-feira, 7 de março de 2012

NOTAS ACERCA DO PROTAGONISMO FEMININO


Estará enganado quem vier a pensar que a posição da mulher no curso da história foi sempre de passividade e silêncio. O próprio 8 de março nasceu do protagonismo feminino, tendo sua origem na cidade de Nova Iorque, em 1857, quando uma manifestação contra as más condições de trabalho numa indústria de tecidos resultou no massacre de dezenas de  mulheres trabalhadoras.

No Brasil e na Bahia inúmeras foram as vezes em que as mulheres, não satisfeitas com o estado de indiferença e apatia a que eram relegadas pela cultura machista, fizeram valer sua coragem e determinação, tomando parte em acontecimentos que se tornariam decisivos no processo de construção da história nacional.

Três episódios da vida brasileira são particularmente emblemáticos no que tange ao protagonismo feminino. São eles:

I. Guerra de Independência da Bahia – Travada contra os portugueses no primeiro quartel do século XIX, nela figuraram heroicamente a religiosa Joana Angélica – morta barbaramente à porta do convento; a soldado Maria Quitéria – alistada como voluntária para lutar junto ao exército nacional e a negra Maria Felipa, que à frente de um grupo de outras mulheres valorosas comandou forte resistência na Ilha de Itaparica, incinerando dezenas de embarcações inimigas. Não por acaso, estas três mulheres se tornariam as figuras mais populares da luta que resultou na vitória do 2 de julho.

II. Guerra de Canudos (1896-1897) – É assaz significativo o número de mulheres que vieram a tomar parte na construção e defesa do arraial de Canudos, nisto lutando até as últimas consequências. Dentre elas, cabe recordar: Dona Benta – uma das figuras mais respeitosas da comunidade canudense, a quem cabia, entre outras coisas, a administração do santuário; Maria da Guerra, (“jagunça braba”, no dizer de José Aras) – heroína de vários combates, tendo lutado contra a expedição Moreira Cezar, quando eliminou muitos soldados a golpe de foice; Pimpona – assim chamada devido à sua encantadora formosura. Foi defensora aguerrida do povo de Antônio Conselheiro, acabando por ferir-se em pleno conflito. A estas, somam-se ainda os nomes de Maria Francisca, Marta Figueira, Bibiana, mestras da comunidade, e de Mãe Caridade, uma das tantas curandeiras do lugar. 

III. Cangaço Nesse ambiente, à primeira vista dominado por “machões”, a figura feminina também exerceria seu protagonismo. No bando de Lampião, o mais afamado de todos, pelo menos três mulheres ocuparam lugar de relevo: Sila – mulher do cangaceiro Zé Sereno, famosa pelas suas investidas contra as “volantes”; Dadá – mulher do temível Corisco, conhecida até hoje pela sua incomparável valentia e Maria Bonita ou Maria Dea – companheira do Rei do Cangaço e uma das personagens mais vibrantes da história do Brasil. Era a ela que recorria o Capitão, quando tinha que tomar uma decisão mais delicada, como, por exemplo, levantar acampamento ou mesmo executar uma “presa”.

O protagonismo feminino, todavia, é muito maior do que se possa imaginar, tornando-se de todo impossível circunscrevê-lo a esse ou àquele momento histórico, muito menos limitá-lo a uma ou outra atividade. O que se pode dizer, no caso específico do Brasil, é que as mulheres sempre estiveram presentes nos processos históricos mais importantes, embora a maioria delas, até hoje, tenha agido no anonimato. No momento, é por demais expressiva a presença feminina em associações de moradores, igrejas, sindicatos, conselhos de gestão, partidos políticos, grupos organizados, etcetera.

Assim, embora reprimidas e muitas vezes a contragosto de espíritos machistas, as mulheres têm sabido ocupar o espaço que entendem lhes pertencer, nisso demonstrando capacidade, força e determinação, sem jamais faltar uma boa dose de ternura.


José Gonçalves do Nascimento
Presidente da Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim – Bahia
jgoncalvesnascimento@hotmail.com

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Latifúndio e barbárie



No último dia 6 de setembro, vésperas da Independência do Brasil, o latifúndio fez tombar mais um trabalhador rural. Desta vez, a vítima foi Leonardo de Jesus Leite, 37 anos, casado, pai de dois filhos, residente no povoado de Mandassaia, município de Monte Santo (BA). Ele pertencia ao Movimento de Trabalhadores Assentados Acampados e Quilombolas (CETA), e há onze anos lutava, ao lado de um grupo de trabalhadores rurais, pela desapropriação de uma área de terra na Fazenda Jibóia, município de Euclides de Cunha (BA).

Leonardo de Jesus é mais um que chega para engrossar a vergonhosa cifra da violência no campo, que há séculos ensanguenta o solo brasileiro, em decorrência da concentração fundiária.

A concentração da propriedade da terra tem acompanhado a história do Brasil, desde os tempos coloniais. As capitanias hereditárias deram origem às sesmarias e estas, por sua vez, deram lugar aos atuais latifúndios. O Brasil, ao longo dos seus 500 anos de ocupação, passou por transformações de todas as ordens, menos no que diz respeito ao sistema fundiário. Uma breve retrospectiva nos mostrará que o Brasil, neste aspecto, se caracterizou, até hoje, como um país extremamente arcaico, conservador e iníquo.

Depois do fracasso do sistema de sesmarias, o país conheceu, em 1850, a chamada Lei de Terras.  Por esta Lei, as terras, antes propriedade da Coroa, se converteram em mercadoria e passaram a ser regidas pela lógica do mercado. A medida fez com que a terra continuasse nas mãos dos ricos, pois somente estes tinham dinheiro para adquiri-las.  Os camponeses, os escravos libertos e os imigrantes pobres que chegassem ao Brasil, estariam privados do acesso à propriedade da terra. Esse quadro marcará de forma substancial toda fase imperial, sobretudo o segundo reinado. Só para se ter uma ideia, o mesmo sistema que em 1888 aboliu a escravatura, não foi capaz de pôr fim à concentração fundiária.

A República rompeu os laços da Monarquia, desfez a unidade que atrelava Igreja e Estado, injetou ideias novas na política brasileira, estabeleceu o federalismo e com ele a autonomia dos estados e municípios, mas não introduziu nenhuma alteração no que diz respeito ao sistema fundiário. Ocorreu justamente o contrário: com a proclamação da República, as elites agrárias saíram mais fortalecidas. Caso emblemático é o da chamada República do “café com leite”, que dominou o cenário político brasileiro nos primeiros 40 anos de regime republicano.

Nos anos de 1960, com as chamadas Reformas de Base, do governo João Goulart, ensaiaram-se algumas mudanças na estrutura fundiária brasileira. As Reformas de Base previam, entre outras coisas, a desapropriação das áreas rurais superiores a quinhentos hectares, que se situassem às margens de estradas federais numa faixa de dez quilômetros; assim como áreas superiores a trinta hectares, marginais dos açudes e obras de irrigação financiadas pelo Governo. Isso significava o início de um processo de transformação mais profunda no âmbito da velha estrutura fundiária brasileira.

Em 1964 veio o golpe militar e, com este, o fim do governo Jango e das reformas de base.

A ditadura fez arrefecer as iniciativas de reforma agrária, permitindo-se que a concentração da terra se acentuasse ainda mais.  A máquina estatal, posta a serviço dos poderosos, foi usada para consolidar e proteger, com seu aparato policial, a estrutura latifundiária.

A partir do Governo Sarney, já na chamada Nova República, o tema da Reforma Agrária foi retomado pela agenda oficial, mas pouco se fez concretamente. Apesar dos avanços operados nesses últimos anos, a politica de redistribuição fundiária ainda é muito tímida. Os governos parecem impotentes diante do “monstro” do latifúndio! E não é para menos! Não nos esqueçamos de que parcela considerável do Parlamento e do Executivo (os responsáveis diretos pela redefinição da política fundiária) é ocupada por grandes latifundiários.

Contudo, a luta pela terra nunca esmaeceu. Muito pelo contrário: ela só tem se fortalecido. E é a esta luta que nós tributamos as diversas experiências de reforma agrária existentes neste país. Mas isso tem custado o sangue de muita gente. Os conflitos de terra seguidos de assassinatos de trabalhadores vêm se acentuado a cada dia. O último relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT) revela que em 2010, no Brasil, foram assassinadas 34 pessoas em conflitos no campo –  30% a mais do que no ano anterior, quando foram mortos 26 agricultores. Só na região de Monte Santo foram registrados, nos últimos três anos, 05 (cinco) assassinatos de trabalhadores rurais na luta pela terra.

Senhor do Bonfim – Bahia

Por: José Gonçalves do Nascimento - Filósofo e poeta
jgoncalvesnascimento@hotmail.com

sábado, 10 de dezembro de 2011

Balada acadêmica aos 20 anos - Aclasb teceu em arte sua própria história: canto, coral, tributo e poesia


Sem competir, mas sem deixar a desejar heavy metal e gêneros excitantes, a Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim (Aclasb) fez dupla celebração na noite desta quarta-feira. Num auditório repleto de acadêmicos e convidados, os 20 anos de sua fundação da instituição a Semana da Cultura foram comemorados lado a lado. Não faltaram emoções e agitos, entusiasmos e encantos. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Juventude e maturidade se viram em vibrações, diferentes, mas nem tão distante do frêmito do hip hop!

Atividades literárias e musicais necessariamente artísticas mantiveram as cortinas abertas para o tempo pré-natalino. Bonfinenses ilustres no passado recente e patronos de fato das cadeiras da instituição ganharam homenagens póstumas da Aclasb e seus familiares - filhos, consortes, parentes – receberam diplomas remissivos ao prestigio dos homenageados. Entre os representantes dos laureados estavam o desembargador Jéferson Muricy, Pedro Castor Xisto e muitos outros.    

Presenças altivas, distintas, togadas ou não, foram à cena do palco e realçaram o melhor da MPB. Existe modéstia mais suntuosa que a reunida na voz e violão de Rogério Moreira? E a brandura insurgente em canto dominante no som delicado de Regina Salgado? Ipi, Ipi urra. Quem foi ao salão da Câmara viu como Paulo Ernesto entra em contrição às canções entoadas (Osvaldo Montenegro?), duas, nacionalíssimas, tal árias da mais pura erudição musical.

Que papelão – Um cego, coitado, respeitoso e moderado, errou o caminho e entrou no local das comemorações. Embora conduzido pelo guia, gastou 69 segundos contados para atravessar cinco metros de salão. Confirmada a gravidade de sua deficiência visual (com ou sem óculos escuros), sobreveio-lhe a pergunta de por que ainda assim seria ele pai de tantos filhos (oito). E o pobre homem, sério e ingênuo, não perdeu o pudor: “Óia, tão pensando qui faço fio é cum os zóio...”. As reações da platéia, sim, foram de risos descomedidos e... (quase) indecorosos – até despertar que estava diante de uma dualidade una: Eugênio Talma/Geninho. Baita show de humor.

Sem sair do chão – Viu-se ademais a matemática verbal com que o fundador da Aclasb compôs e decompôs os 20 anos de Aclasb. Cada época tem uma auréola poética, o nome de uma rua; cada sujeito lembrado está numa estrofe e nalgum inolvidável viés cultural; cada fato vem narrado em mescla de qualidades artísticas peculiares. É o intelecto de Paulo Machado. Quando pára a sonoridade da declamação histórica, sucedem-lhe a cadência dos aplausos. Da mesa, o acadêmico Aurélio Soares ensaiou a indefectível coreografia. O fotógrafo Cinco Mil flagrou. Esse rolé excêntrico dominou a todos no auge da orquestra da Saudade e o maestro Fernando Dantas sorriu feito criança – mas não pediu pra galera nenhuma sair do chão.

O mundo é aqui – As poesias natalinas, saudosas menções aos que fazem arte e letra em Senhor do Bonfim e as evocações a Jesus Cristo foram cercadas no início pelo Hino Nacional, no fim pelo Hino a Senhor do Bonfim. Porém houve na abertura três páginas de José Gonçalves que o dignificam como presidente da Aclasb. Nelas ele disse da origem, do desenvolvimento e do futuro do movimento acadêmico ao redor do mundo. Abreviou brilhantemente de como homens e mulheres que agem e pensam artisticamente trouxeram essa forma de expressar sabedoria aos nossos dias. Um resumo histórico literário próprio de quem comete academia (texto integral no final da matéria). Vale conferir.

Homenageados – Diplomas de Honra ao Mérito (in memoriam) foram concedidos aos acadêmicos falecidos: Joaquim Muricy Sobrinho, Zenáurea Teresinha Campos Dias, Antônio Martins de Souza, Maurício Salamá, Caio Mário Félix Martins, Antônio de Carvalho Melo, José Santos “Zequinha Poeira”, Antônio Augusto Castor Xisto, Osvaldo Alves Aragão, Raimundo Izidório dos Santos e Antônio José Gonçalves da Silva. Os diplomas foram entregues em cerimônia formal e a recepção foi honrosa.
Cada recital esteve sob as coordenadas cerimoniais de Tito Rocha e Eleonor Sena Gomes. Téo Canarana teclou acordes para ouvidos apurados: Carlos de Tijuaçu, secretária de Cultura Riana Oliveira (ambos na Mesa), acadêmico Josemar Santana etc.

Em breve vôo alçado, o dizer do presidente:
Senhores e senhoras,
Surgida no século IV a.C., do gênio inventivo de Platão, a primeira academia teve lugar nos arredores de Atenas, nos chamados jardins de Academus, herói grego da guerra de Tróia, vivido no século XII a.C. Embora destinada ao culto oficial das musas, ali se desenvolvia extensa atividade intelectual, reunindo-se diversos domínios do saber, como a Filosofia, a Matemática, a Música, a Astronomia e a Legislação.

A obra iniciada pelo filósofo ateniense e continuada por seus discípulos, constitui-se em importante marco do saber ocidental, sendo a fonte originária de todas as academias que, a partir de então, passaram a estabelecer-se no mundo inteiro, marcando épocas e lugares.

A título de ilustração, importa destacar algumas dessas academias: Academia Platônica, fundada em Florença por volta de 1440 – Era a mais famosa da Renascença Italiana; Academia Francesa, criada em 1635, por iniciativa do Cardeal Richelieu, no reinado de Luis XIII; Academia Espanhola, instituída em 1713, por obra de Juan Manuel Fernandez Pacheco, no reinado de Felipe V; Academia Real das Ciências de Lisboa, fundada em 1779, no reinado de D. Maria I, em pleno Iluminismo; Academia Brasileira de Letras, estabelecida em 1896, por Araripe Júnior, Raul Pompéia e Machado de Assis, que foi o seu primeiro presidente.

A fundação da Academia Brasileira de Letras fez desencadear o surgimento das – por assim dizer – academias estaduais, em praticamente todos os estados brasileiros. Entre elas a da Bahia, de 1917. Desse movimento, resultam as demais academias que se seguiram depois e que ainda hoje não cessam de se multiplicar. Conta-se no Brasil, atualmente, com uma constelação de muitas centenas dessas confrarias, cobrindo distintas áreas do pensamento, como a Literatura, as Artes (de um modo geral), o Direito, a Medicina, a Filosofia, a Religião, etc.

Como a academia de Platão, as academias de letras, ao longo da sua história, têm se caracterizado pela capacidade de dialogar, no mesmo espaço e em torno do mesmo objetivo, com os mais diversos campos do conhecimento. É o que Haroldo de Campos chamou de “movimento dialógico da diferença”. No caso em apreço, esta tem sido a condição primordial para a consolidação da unidade dos saberes e, por conseguinte, para a conservação do edifício cultural, na acepção plena da palavra.

Para Noberto Bobbio, enquanto a política divide – e divide porque vive do conflito – a cultura une – e une porque vive do diálogo. A assertiva do ilustrado pensador italiano traz à memória a palavra balizada de Machado de Assis, que ao tomar posse como presidente da Academia Brasileira de Letras, em 1897, cunhou o escopo daquela entidade: “conservar, no meio da federação política, a unidade literária”.

A ACLASB não foge à regra. Consoante os estatutos que a regem, sua missão capital é unir homens e mulheres de letras e artes, com vistas à promoção e aprimoramento da cultura bonfinense, nas suas diferentes manifestações. Este foi o sonho que moveu os corações dos seus idealizadores, quando da sua fundação, naquele cinco de dezembro de 1991. E para isto nunca faltou empenho, embora nem sempre se tenha obtido o resultado esperado, haja vista as dificuldades que, não raro, costumam rodear esse tipo de atividade. 

Ao completar 20 anos de instalação, a Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim sela, mais uma vez, seu compromisso com a cultura local, na certeza de que, doravante, além de contar com maior dedicação da parte dos seus honrosos membros, também gozará do apoio afetuoso da comunidade bonfinense.

Ainda no ensejo do seu 20° aniversário, a ACLASB sente-se no dever de reverenciar a memória daqueles que um dia tomaram parte no seu quadro de sócios, sejam eles fundadores ou não, e que hoje já não habitam mais aqui, pelo menos fisicamente.
Guimarães Rosa, em discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, poucos dias antes de morrer, asseverou que “as pessoas não morrem, ficam encantadas”. Lá onde estiverem, nossos venerandos e eternos confrades, seguramente, estão a velar por nós e a alimentar nossos sonhos de uma academia melhor, mais atuante e mais profícua.

Parafraseando Shelley, quando da morte prematura de Keats, diríamos que “eles alçaram seu vôo além das trevas das nossas noites”. Por isso, jamais morrerão!"


Assessoria de Comunicação Social - Prefeitura de Senhor do Bonfim

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim comemorou seus 20 anos de fundação

A Academia de Letras e Artes em sessão magna na noite desta quarta-feira 07 no salão da câmara de vereadores de senhor do Bonfim comemorou seus 20 anos de fundação e homenageou personalidades bonfinenses, que contribuíram para elevação da cultura no município.
Na cerimônia de abertura para  compor a mesa estiveram presentes: Jeferson Muricy( desembargador ) que teve seu pai homenageado, Paulo Machado( fundador da academia e prefeito de Senhor do Bonfim), Dr. Aurélio Soares( vice-prefeito), Carlos de Tijuaçú( vereador), José Gonçalves( presidente da Academia de Letras) e Riana Oliveira( Secretária de Cultura).    
Na noite de homenagem, o jovem Pedro Castor , juntamente com sua família recebeu das mãos de Tito Rocha a homenagem feita pela Academia de Letras e Artes a seu pai Antônio Augusto Castor Xisto, que além de escritor, cronista, poeta e músico, foi membro fundador junto com outros colegas da Casa dos Artistas Bonfinenses, foi locutor da Rádio Caraíba e fundador, e membro fundador da Academia de Letras, entre  outras conquistas relevantes para a cultura, o filho do homenageado, Pedro Castor falou: “estou muito feliz de estar recebendo esta homenagem feita ao meu grande pai que é meu ícone, poderia passar a noite inteira falando das conquistas deixadas para a cultura bonfinense e dos seus bons exemplos , quero aproveitar a oportunidade para fazer um pedido ao prefeito Paulo Machado: a construção de um museu em Senhor do Bonfim, realize prefeito este sonho, que não e só de meu pai e sim de todos nós bonfinenses, não só o de relíquias, mas também o de fotografia das personalidades da cidade, pois cidade que não tem passado, não tem futuro. Aproveito e finalizo contando aqui uma historia de Ruy Barbosa que intitulou Bonfim como Terra do Bom Começo. Conta o imaginário popular que Ruy Barbosa criava patos e chegando em sua residência encontrou um ladrão em seu quintal com dois patos em mão, então interpelou o homem dizendo: Ô rapaz, não é pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes e sim pelo ato vil e sorrateiro de galgares os profanos de minha residência. Se o fazes por necessidades,transijo; mas sé é para zombares de minha alta prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala no alto de tua sinagoga. Ele sem entender nada disse olhando para Ruy Barbosa disse: o senhor quer que  eu leve o pato ou deixe o pato?”               
A cerimônia de homenagem da Academia de Letras e Artes foi marcada em comemoração ao “Dia da Cultura Bonfinense” ,que ficou no calendário da cidade pela vinda do memorável Ruy Barbosa em nosso município no dia 5 de dezembro no ano de 1919.  As apresentações da noite tiveram as participações dos artistas: Rogério Moreira e seus filhos, de Regina Salgado , Téo Canarana, Geninho(  ator teatral ) e  da orquestra da Saudade do maestro Fernando Dantas.
Por Adriana Longuinho

DISCURSO PROFERIDO DURANTE SESSÃO SOLENE EM HOMENAGEM À SEMANA DA CULUTRA BONFINENSE E 20° ANIVERSÁRIO DA ACADEMIA DE LETRAS E ARTES DE SENHOR DO BONFIM

Senhores e senhoras,

Surgida no século IV a.C., do gênio inventivo de Platão, a primeira academia teve lugar nos arredores de Atenas, nos chamados jardins de Academus, herói grego da guerra de Tróia, vivido no século XII a.C. Embora destinada ao culto oficial das musas, ali se desenvolvia extensa atividade intelectual, reunindo-se diversos domínios do saber, como a Filosofia, a Matemática, a Música, a Astronomia e a Legislação.

A obra iniciada pelo filósofo ateniense e continuada por seus discípulos, constitui-se em importante marco do saber ocidental, sendo a fonte originária de todas as academias que, a partir de então, passaram a estabelecer-se no mundo inteiro, marcando épocas e lugares.

A título de ilustração, importa destacar algumas dessas academias: Academia Platônica, fundada em Florença por volta de 1440 – Era a mais famosa da Renascença Italiana; Academia Francesa, criada em 1635, por iniciativa do Cardeal Richelieu, no reinado de Luis XIII; Academia Espanhola, instituída em 1713, por obra de Juan Manuel Fernandez Pacheco, no reinado de Felipe V; Academia Real das Ciências de Lisboa, fundada em 1779, no reinado de D. Maria I, em pleno Iluminismo; Academia Brasileira de Letras, estabelecida em 1896, por Araripe Júnior, Raul Pompéia e Machado de Assis, que foi o seu primeiro presidente.

A fundação da Academia Brasileira de Letras fez desencadear o surgimento das – por assim dizer – academias estaduais, em praticamente todos os estados brasileiros. Entre elas a da Bahia, de 1917. Desse movimento, resultam as demais academias que se seguiram depois e que ainda hoje não cessam de se multiplicar. Conta-se no Brasil, atualmente, com uma constelação de muitas centenas dessas confrarias, cobrindo distintas áreas do pensamento, como a Literatura, as Artes (de um modo geral), o Direito, a Medicina, a Filosofia, a Religião, etc.

Como a academia de Platão, as academias de letras, ao longo da sua história, têm se caracterizado pela capacidade de dialogar, no mesmo espaço e em torno do mesmo objetivo, com os mais diversos campos do conhecimento. É o que Haroldo de Campos chamou de “movimento dialógico da diferença”. No caso em apreço, esta tem sido a condição primordial para a consolidação da unidade dos saberes e, por conseguinte, para a conservação do edifício cultural, na acepção plena da palavra.

Para Noberto Bobbio, enquanto a política divide – e divide porque vive do conflito – a cultura une – e une porque vive do diálogo. A assertiva do ilustrado pensador italiano traz à memória a palavra balizada de Machado de Assis, que ao tomar posse como presidente da Academia Brasileira de Letras, em 1897, cunhou o escopo daquela entidade: “conservar, no meio da federação política, a unidade literária”.

A ACLASB não foge à regra. Consoante os estatutos que a regem, sua missão capital é unir homens e mulheres de letras e artes, com vistas à promoção e aprimoramento da cultura bonfinense, nas suas diferentes manifestações. Este foi o sonho que moveu os corações dos seus idealizadores, quando da sua fundação, naquele cinco de dezembro de 1991. E para isto nunca faltou empenho, embora nem sempre se tenha obtido o resultado esperado, haja vista as dificuldades que, não raro, costumam rodear esse tipo de atividade.  

Ao completar 20 anos de instalação, a Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim sela, mais uma vez, seu compromisso com a cultura local, na certeza de que, doravante, além de contar com maior dedicação da parte dos seus honrosos membros, também gozará do apoio afetuoso da comunidade bonfinense.

Ainda no ensejo do seu 20° aniversário, a ACLASB sente-se no dever de reverenciar a memória daqueles que um dia tomaram parte no seu quadro de sócios, sejam eles fundadores ou não, e que hoje já não habitam mais aqui, pelo menos fisicamente.

Guimarães Rosa, em discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, poucos dias antes de morrer, asseverou que “as pessoas não morrem, ficam encantadas”. Lá onde estiverem, nossos venerandos e eternos confrades, seguramente, estão a velar por nós e a alimentar nossos sonhos de uma academia melhor, mais atuante e mais profícua.

Parafraseando Shelley, quando da morte prematura de Keats, diríamos que “eles alçaram seu voo além das trevas das nossas noites”. Por isso, jamais morrerão!


Senhor do Bonfim, 07 de dezembro de 2011

José Gonçalves do Nascimento  - Presidente da Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O ENCANTO DO CORDEL

José Gonçalves do Nascimento 
Presidente da Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim 

Há meses no ar, a novela global Cordel Encantado continua encantando o telespectador brasileiro. Não é a primeira vez que o tema ocupa a telinha (ou a telona) da família Marinho. Recordem-se, a propósito, clássicos da teledramaturgia como O Bem Amado, Roque Santeiro, O Auto da Compadecida, Hoje é Dia de Maria, etc. Todavia, Cordel Encantado é a peça que mais se aproxima do mundo fantástico da Literatura de Cordel.
É evidente que alguns elementos precisam ser questionados. No que diz respeito ao cangaço, por exemplo, causa-nos estranheza ver cangaceiros usando brinquinhos, morando em tendas ricamente mobiliadas, dirigindo carro de luxo, frequentando cafés, e circulando quase que livremente sob o olhar da polícia e das autoridades. No tocante ao misticismo religioso, outro elemento presente na trama, o profeta Miguezinho (Matheus Nachtergaele) é apresentado de forma caricata, mesclando momentos de lucidez com surtos de loucura, o que, de certa  forma, acaba contribuindo para a deturpação de uma das figuras mais ricas da religiosidade popular do Nordeste: o beato.
A peça de Thelma Guedes e Duca Rachid, entretanto, ostenta o mérito de trazer para a ordem do dia o tema da Literatura de Cordel com todo o seu universo fabuloso, que vai desde a xilogravura, presente na abertura do folhetim, até o enredo propriamente dito. Trata-se, sem dúvida, de uma grande contribuição para o processo de resgate e preservação da Literatura de Cordel, enquanto manifestação da cultura popular.
Em quase dois séculos de presença em terras nordestinas, a Literatura de Cordel jamais perdeu sua identidade. O segredo disso está na sua força comunicativa. Além da sua beleza poética, o Cordel se caracteriza também pela simplicidade da linguagem e pela objetividade com que trata os temas mais complexos.
Na época em que não havia o rádio nem a televisão e os jornais eram privilégio de poucos, foram os poetas populares os principais responsáveis pela veiculação de informações. Os fatos mais importantes eram levados ao grande público através dos Folhetos de Cordel. Além de jornalistas e repórteres, os cordelistas foram também cronistas, historiadores, humoristas, romancistas, etc.
Os tempos mudaram, mas a Literatura de Cordel continua fascinante. Para muitas pessoas ela é a única opção de leitura. Felizmente, a cada dia despontam novos cordelistas dispostos a darem continuidade a essa tradição cultural.
Viva o Cordel, agora e sempre!